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quinta-feira, 26 de junho de 2014

The Cure - 4:13 Dream (2008)



The Cure 2008: Porl Thompson, Robert Smith, Jason Cooper e Simon Gallup

Volta e meia, Robert Smith assusta os fãs do The Cure ameaçando o encerramento das atividades de sua banda. De ameaça em ameaça, o The Cure continua firme e forte, lançado álbuns que, se não chegam a lembrar os áureos tempos de "Pornography" (1982), "The Head On The Door" (1985) e "Disintegration" (1989), pelo menos não deixam a peteca de uma das bandas mais importantes dos anos 1980 cair. E o último álbum do conjunto "4:13 Dream" é um belo exemplo de que a insistência de Smith tem valido a pena.
Desde o surgimento do The Cure, há 30 anos, muita coisa aconteceu. Não seria cabível citar aqui todas essas mudanças, mas uma chama especialmente a atenção em "4:13 Dream": a ausência de tecladista, que já pôde ser sentida no DVD "Festival 2005", que mostrava a banda com um som mais cru, pesado e, para muitos, menos interessante.
Musicalmente, pode-se dizer que o The Cure mudou bastante, mas a inspiração de Robert Smith para compor novas canções não foi escoada pelo ralo. E isso pode ser ouvido no tão adiado "4:13 Dream", 13º álbum de estúdio do The Cure. Robert Smith, Porl Thompson, Simon Gallup e Jason Cooper criaram um belo disco, como havia muito tempo não era lançado pelo The Cure.
Apesar da sonoridade crua, a banda inglesa fez um trabalho solar, pop, que, em termos de estética (e qualidade) pode ser comparado a "Wish", que saiu em 1992 (aquele mesmo que tinha o megahit "Friday I'm In Love"). Lógico que a costumeira angústia de Robert Smith, expressada nas longas letras,  permanece firme e forte. Mas qual seria a graça do The Cure se isso mudasse?
Bons exemplos dessa clareza solar são as faixas "The Perfect Boy" e "This. Here and Now. With You". A primeira, que foi um dos quatro singles lançados antes do álbum em si (os outros foram "The Only One", "Freakshow" e "Sleep When I'm Dead", todos lançados, respectivamente, no dia 13 dos meses de maio, junho e julho do ano passado), só não é a melhor do álbum porque a faixa de abertura de "4:13 Dream", "Underneath The Stars" é uma das maiores obras-primas da história da banda. A bipolar "This. Here and Now. With You" segue o mesmo caminho, misturando momentos sombrios e alegres, ou escuridão e raios solares, como um eclipse solar.
A climática "Underneath The Stars", a melhor do álbum tem um climão do obscuro "Disintegration" (1989), especialmente da sua faixa de abertura "Plainsong". As suas guitarras reverberadas e os vocais cheios de eco fazem da canção um clássico instantâneo do The Cure. Aliás, nesse álbum a banda de Smith faz referências a diversos álbuns antigos do conjunto. A maior inspiração, certamente, foi "Wish" (a nova "The Reasons Why" poderia estar tranquilamente nele, e "The Only One" chega a chupar a melodia de "High"), mas é inegável o eco de "Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me" em "Freakshow", curtinha e alegre, no melhor estilo "Hot Hot Hot!!!" ou "Why Can't I Be You". Já "Sleep When I'm Dead" tem um quê de "The Head On The Door". Inclusive, a canção foi originalmente escrita para o álbum de 1985 - agora você entendeu o porquê daquele coro?
A suposta temática em torno do número 13, no entanto, não faz de “4:13 Dream” um álbum conceitual. O repertório fala de temas diversos, incluindo suicídio e relacionamentos. As guitarras distorcidas de “Scream”, a rápida e vibrante “It’s Over” e a melodia e pegadas típicas que se ouvem em “The Reasons Why” são indicativos do talento que o quarteto não perdeu ao longo dos mais de 30 anos de carreira. Embora não sejam grandes ‘hits’ “The Only One” e “Sleep When I’m Dead” (essa, reciclada de gravações que datam da década de 1980) são canções que fazem lembrar grandes momentos da banda. Elas têm um ‘quê’ de “Friday I’m in Love” e “Close to Me” e merecem destaque.
Embora tenha composto 33 canções ao todo, com a idéia de lançar um álbum duplo, a banda decidiu escolher apenas 13 delas para “4:13 Dream”. Robert Smith, vocalista e principal compositor da banda, andou declarando que as canções mais sombrias ficarão para um outro lançamento.
O álbum tem recebido críticas mistas. Sim, é verdade que “4:13 Dream” mostra um Cure que circula por veredas confortáveis e sem riscos. Por outro lado, revela a personalidade forte e única do grupo, coisa nem sempre fácil de encontrar atualmente. Fato incontestável é que, com “4:13 Dream”, o The Cure deixa claro que não foi apenas uma moda que passou.
Mas mesmo na sonoridade, o The Cure tem os seus momentos de... The Cure. "The Hungry Ghost", cuja letra critica o consumismo, transita entre a alegria de "Wish" (1992) e a barra pesada de "Bloodflowers" (2000). A linda balada "Sirensong" remete a uma sonoridade mais dark, assim como a pesada "Switch" e "The Scream", essa última com as suas variações melódicas, em uma levada mais "paranóica", assim como a sua letra. O encerramento com "It's Over" eleva "4:13 Dream" a sua carga máxima, com os ótimos vocais de Robert Smith e a cozinha de Simon Gallup e Jason Cooper quebrando tudo.
Em suma, "4:13 Dream" desce bem como havia muito tempo um álbum do The Cure não descia. Logicamente, nele existem canções que acabam se sobressaindo com relação a outras, mas, de um modo geral, é aquele tipo de disco, que, logo que termina de tocar, a gente fica com vontade de ouvir novamente para descobrir algo novo.
E quem considera o The Cure uma espécie de "banda velha que está querendo se transformar em emo moderno", deve ouvir bastante "4:13 Dream". Robert Smith e seus companheiros ainda têm muita caloria para queimar. E, sim, o The Cure está vivo!

The Cure - 4:13 Dream (2008)


01. Underneath the Stars
02. The Only One
03. The Reasons Why
04. Freakshow
05. Sirensong
06. The Real Snow White
07. The Hungry Ghost
08. Switch
09. The Perfect Boy
10. This. Here and Now. With You
11. Sleep When I’m Dead
12. The Scream

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